O que foi o Pride e o que é o UFC? Saiba mais sobre o maior evento da história do MMA

Publicado: 7 de agosto de 2012 em Uncategorized
Tags:, ,

Por Rafael Manaia

Fonte: (pt.wikipedia.org)

Enquanto o UFC vivia tempos difíceis no início dos anos 2000, ao ser recém-adquirido pela Zuffa, do outro lado do mundo havia um evento que dominava o mercado global de MMA: o Pride Fighting Championship, ou simplesmente Pride, como era mais conhecido. Contando com a maioria dos principais lutadores de seu tempo, o Pride realizou quase todas suas edições em solo japonês.

História do Pride

O Pride surgiu no ano de 1997, com o nome de KRS (Kakutougi Revolution Spirits) Pride e tinha o propósito de realizar um evento de uma única noite. Logo em sua primeira edição, os promotores casaram a luta entre a estrela do pró-wrestling japonês Nobuhiko Takada e Rickson Gracie, principal representante do jiu-jitsu brasileiro. Com a vitória do Gracie em pleno Tóquio Dome, vista por 47 mil pessoas, cresceu a mística em torno do jiu-jitsu e despertou o interesse do público japonês pelo até então “vale-tudo”. O sucesso fez com que os dirigentes dessem sequência ao evento, que em sua segunda edição limou o KRS e acrescentou Fighting Championship.

Como principal legado, o Pride ajudou a popularizar o MMA no mundo, tendo como grande atrativo a utilização de torneios em alguns de seus eventos, ou chamados Grand Prix, quando o mesmo atleta realiza três lutas na mesma noite. Além de suas 34 edições, o Pride organizou esses torneios no ano de 2000, no qual Mark Coleman se sagrou campeão; 2003, vencido por Wanderlei Silva; 2004, quando Fedor Emelianenko levou a melhor; 2005, quando Maurício Shogun venceu pelos meio pesados, Dan Henderson pelos médios e Takanori Gomi nos leves; e em 2006, quando Mirko “Cro Cop” levou o torneio na categoria absoluto, enquanto Kazuo Misaki se firmou como grande nome entre os médios.

Tal formato era apreciado pelos fãs de MMA, que desde a venda do Pride nunca mais acompanharam um evento com as mesmas características. Vale lembrar que nos Estados Unidos as lutas são regulamentadas por comissões atléticas há mais de uma década, que proíbem o lutador de realizar mais de um combate na mesma noite. Fora os eventos em formato de torneio, o Pride organizou 13 edições da série chamada Bushido, onde lutavam apenas os atletas leves (73 kg) e médios (83 kg). Somando as 34 edições oficiais a outros formatos especiais, como Shockwave e The Best, o evento totaliza 68 apresentações.

Apesar do sucesso, o Pride enfrentava uma grave crise desde junho de 2006, quando perdeu seu contrato com uma das maiores emissoras do Japão, a TV Fuji Network. Segundo o tabloide Shukan Gendai, o fim do contrato ocorreu pelo suposto envolvimento dos dirigentes do Pride com a yakuza, organização mafiosa japonesa. Em janeiro de 2003, três anos antes do boato, o então presidente do Pride, Naoto Morishita, foi encontrado morto com uma corda no pescoço. A polícia tratou o caso como suicídio, motivado pelo fim de seu relacionamento, mas existem rumores de que a morte do cartola foi encomendada. Verdade ou não, fato é que em 2006 o Pride passou a ser exibido apenas pela Sky PerfecTV, no sistema pay-per-view, sem a ajuda de seus principais patrocinadores.

UFC compra o Pride

Aliando as denúncias de ligação com a yakuza ao crescimento do Ultimate, o Pride acabou cedendo ao poder econômico dos americanos. No dia 27 de março de 2007, o presidente do Pride, Nobuyuki Sakakibara, anunciou oficialmente a venda do evento aos irmãos Fertitta e Dana White, proprietários do UFC. Pouco tempo depois, Sakakibara afirmou em entrevista que o mercado americano era pelo menos dez vezes maior que o japonês, o que tornava impossível uma competição em longo prazo.

Apesar da maré de escândalos em que estava envolvido e a saída de inúmeros patrocinadores, principal fonte de renda do evento, estima-se que o UFC tenha pago US$ 70 milhões à Dream Stage Entertainment, empresa que detinha os direitos do Pride. O valor não é oficial, já que a negociação nunca teve seus valores divulgados. O UFC comprou o Pride com a promessa de dar sequência ao evento japonês, o que de fato jamais ocorreu. Em agosto de 2007, Dana White, presidente do UFC, sinalizou pela primeira vez que jamais haveria uma nova edição do Pride. Segundo o cartola, nenhuma emissora japonesa tinha interesse em fechar contrato com a Zuffa. “Era como se não quisessem os americanos do UFC por lá”, revelou White.

Como curiosidades, o Pride selou a paz entre jiu-jitsu e luta-livre na sua quarta edição, realizada em 1998; na ocasião, Carlson Gracie fez o córner de Hugo Duarte, na época principal representante da luta-livre, contra o temido Mark Kerr. Entretanto, outra rivalidade seria criada no evento, entre as equipes brasileiras Brazilian Top Team e Chute Boxe. Além disso, o Pride é dono do maior público numa luta de MMA, com 91.187 espectadores, que acompanharam a vitória de Rodrigo Minotauro em cima de Bob Sapp; o combate foi realizado no dia 28 de agosto de 2002, no Estádio Nacional de Tóquio.

Arena de competição

Para a realidade de atleta, é fácil constatar que existe uma enorme diferença entre lutar num ringue cercado de cordas, como no Pride, do que fazê-lo num octógono coberto por grades, como no UFC. Com pouco mais de 9 m de diâmetro e quase 60 m² de área, o octógono tem espaço mais espaço útil de combate do que no ringue, representado por um quadrado com no máximo 7 m de lado e 49 m² de área. Vale frisar que o ringue do Pride era ainda menor que o convencional, tendo pouco mais de 6 m em cada lado, o que totaliza aproximadamente 37 m² de área.

A diferença, por sinal bem significante, acabou por afetar o desempenho de alguns atletas vindos do Pride. O primeiro impacto é a dificuldade em encontrar o oponente, ao considerar que, quanto maior a área, mais difícil se torna encontrar a distância correta para disparar os golpes. Em entrevistas, Maurício Shogun deixou claro que tal característica atrapalhou na sua adaptação ao Ultimate. É bom lembrar que no ringue quadrado, com quinas definidas, é mais fácil encurralar o adversário no córner, o que valoriza as qualidades de um especialista na trocação, que atua de maneira mais ofensiva.

Por sua vez, o octógono, com vértices obtusos, pede mais movimentação por parte do lutador que busca o nocaute, favorecendo assim os lutadores com especialidade na luta agarrada, que utilizam as paredes do octógono para imprensar, punir ou finalizar seu oponente. Por dificultar o trabalho do striker, o octógono força o lutador a ter uma base de wrestling mais apurada, obrigando-o a trabalhar as defesas de queda com mais intensidade que nos ringues. Como consequência desse fato, os atletas atuais são mais completos e capazes de decidir o combate em qualquer campo, seja por nocaute ou finalização.

Valorizado no UFC, o jogo de luta olímpica é mais difícil de ser desenvolvido no ringue de cordas, já que é possível o atleta passar os pés ou quadril para fora do ringue, livrando-se assim de uma disputa travada no corpo a corpo. Ou seja, as técnicas de wrestling são dificultadas no ringue pela simples falta de um anteparo rígido, como as grades do UFC. Tal diferença entre os dois eventos explica a dificuldade por que passaram atletas como Wanderlei Silva e Mirko “Cro Cop”, strikers eficientes no Pride, que não tiveram o mesmo brilho no Ultimate. Por outro lado, explica a evolução de Quinton “Rampage” Jackson, lutador oriundo do wrestling, que chegou a conquistar o cinturão meio pesado do UFC.

Regras

A diferença no local de competição foi precedida pela perseguição dos políticos americanos ao Ultimate, que precisou criar regras de proteção, de modo a não tornar o MMA perigoso para o seu competidor. Nos eventos japoneses, disputados em ringues e livres de qualquer tipo de pressão política, certas manobras causariam pavor a quem se adaptou às regras americanas, que foram exportadas e acabaram se tornando padrão para os eventos de MMA pelo mundo. Em compensação, os japoneses proibiam um golpe muito usado nos eventos americanos: a polêmica cotovelada.

Por não sofrer pressão por parte das comissões atléticas, o Pride não tinha lá tanta preocupação com a segurança de seus lutadores. Como exemplo, o evento não permitia o uso de vaselina ou qualquer outro produto lubrificante no rosto, o que acontece no Ultimate. Também utilizada no boxe, a vaselina tem como função deixar o rosto mais escorregadio, dificultando o impacto de um soco, chute ou cotovelada, minimizando assim os danos oriundos da luta. Após o ocorrido no UFC 94, quando BJ Penn acusou Georges St. Pierre de passar vaselina em excesso, o Ultimate decidiu que o córner ficaria proibido de aplicar o produto antes ou durante as lutas. Atualmente, a tarefa é desempenhada pelo próprio evento.

Apesar do certo grau de desleixo com seus atletas, isso jamais afetou a imagem do Pride. Principalmente perante seu público, que vibrava a cada pisão na cabeça, tiro de meta – que consiste em chutar, de pé, um adversário caído – e joelhada no rosto, com o adversário no solo. Com o trabalho desenvolvido nos Estados Unidos junto às comissões atléticas, essas técnicas foram proibidas por motivos óbvios. Principalmente porque, no octógono, as paredes em formato de grave podem pressionar a cabeça do atleta caído contra o pé do adversário, diferente do que ocorre no ringue de cordas, o que torna o golpe bem mais contundente.

Porém, os japoneses não permitiam o uso de cotoveladas, golpe largamente utilizado no UFC. A explicação do Pride para a proibição do golpe partia do princípio de ser um golpe cortante, que provoca sangramento excessivo e gera uma imagem forte ao telespectador. A explicação é plausível, mas se torna incoerente a partir do momento que o Pride foi palco de cenas fortíssimas. Por sua vez, os torcedores americanos adoram as cotoveladas aplicadas a partir do ground and pound. Fato é que as cotoveladas causam mais estrago aparente pelo poder de corte, mas o impacto é pífio se comparado a um pisão ou tiro de meta na cabeça.

Como modalidade esportiva, o MMA deve sempre privilegiar a técnica e a aplicação de planos táticos. Apesar de todo sucesso e carisma obtidos ao longo de uma década, alguns golpes permitidos pelo Pride eram incapazes de demonstrar superioridade técnica, além de reduzir as chances de defesa e propiciar alguma lesão irreversível ou mesmo morte. Mesmo que motivadas por pressões políticas, as regras desenvolvidas pelo Ultimate ajudaram a tornar o esporte mais profissional e desvincular o MMA do “vale-tudo”. Como resultados, o UFC gera mais audiência, receita e cada vez mais valoriza sua marca pelo mundo.

Duração da luta

Dando sequência entre nas diferenças entre UFC e Pride, chegou a vez de falarmos da duração das lutas em cada evento. Até novembro de 2011, o UFC realizava três rounds de cinco minutos para as suas lutas, com as disputas de cinturão tendo duração de cinco rounds de cinco minutos. O Pride, por sua vez, utilizava para todas as lutas o primeiro assalto com duração de dez minutos e os dois seguintes com cinco minutos cada.

Atualmente todas as lutas principais do Ultimate, mesmo aquelas que não envolvam disputa de cinturão, têm cinco rounds com duração de cinco minutos cada. A primeira luta do tipo a ser disputada em cinco assaltos foi no entre os pesos médios Chris Leben e Mark Muñoz, pelo UFC 138, realizado no dia 5 de novembro de 2011, em Birmingham, na Inglaterra.

Gestão

Enquanto o Ultimate tem suas preocupações voltadas para a rentabilidade financeira, geração de negócios e expansão da marca pelo mundo, o Pride optou por casar a luta ao espetáculo, o que ainda é pouco desenvolvido nos Estados Unidos. Dessa forma, o evento japonês gerou valor para sua marca e um simbolismo sem precedentes na história do MMA. Mesmo cinco anos após encerrar suas atividades, ainda não houve outro evento com o mesmo porte e característica do Pride, o que deixou vaga uma lacuna no mercado global de MMA.

Com as entradas sempre triunfais de seus lutadores, chamados sempre de forma efusiva pelo announcer e recebidos por um verdadeiro festival de fogos, o Pride acabou tomando alguns elementos que pertenciam ao pró-wrestling.             No fim das contas, o evento se tornou único ao apostar numa mistura que casava espetáculo, entretenimento e esporte. A atmosfera em torno do Pride era megalomaníaca, longe do ambiente underground dos espetáculos do UFC. Os americanos, por sua vez, venceram a disputa ao conseguir grandes lucros e tornar o mercado de MMA mais rentável e popular.

No Pride, lutas entre competidores com 60 kg ou mais de diferença não eram raras – como exemplo, vale lembrar a histórica luta entre Rodrigo Minotauro e Bob Sapp. Combates desse tipo tinham bastante apelo comercial, ao considerar que o público japonês sempre foi fascinado por essa disputa “Davi e Golias”. Tal formato operou por uma década, mas ruiu assim que a reputação do evento foi manchada, deixando órfã uma legião de fãs que tem pavor à política de monopólio do UFC. Parte dos dirigentes do Pride chegaram a promover outro torneio de MMA, o Dream, que pelas variadas dificuldades encontradas, entre elas a baixa audiência, acabou fechando as portas em 3 de junho de 2012.

Abaixo, confira o vídeo com alguns dos melhores momentos do Pride. Se você também é um órfão do evento japonês, responda ao MMA Em Foco: qual sua maior lembrança do Pride? Deixe seu comentário pelo blog ou através da nossa página no Facebook, clicando aqui.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s